Dentro dela tem um coração bobo, que é sempre capaz de amar e de acreditar outra vez. Caio Fernando Abreu
quarta-feira, 10 de julho de 2013
Cinquenta vezes
Ela tenta. Tenta uma, duas, três, cinquenta vezes. Quebra a cara uma, duas, três, cinquenta vezes. Levanta uma, duas, três, cinquenta vezes. Mas desiste apenas uma vez; desapega apenas uma vez; sente dor apenas uma vez. Ergue a cabeça com a promessa de evitar acontecimentos futuros. Promessa furada. Ela sabe que vai se apaixonar loucamente de novo, vai dar o melhor de si e não receber o que acha que deve, vai sofrer, vai encharcar o travesseiro de lágrimas, vai desistir, vai desapegar, vai sentir saudade, vai recordar, vai viver. Uma única brecha será capaz de mostrar toda a sua fraqueza. Ela tem medo de ser abandonada, apesar de estar acostumada a viver no total esquecimento. Teme o escuro tanto quanto na infância. Não suporta o silêncio. Tem conhecimento de que na combinação deles os pensamentos sobrevoam em frente aos seus olhos, o nariz tranca, a voz embarga, os olhos molham e o coração dói insuportavelmente. Junta as mãos e pede aos céus para ser forte, para que dê certo uma vez na vida ao menos. Não pede outra chance, pois sabe que já desperdiçou muitas e essa é aquela que não se pode perder. Sente que já está perdendo, escorregando entre seus dedos...tão rápido. Sozinha num canto do quarto, procura um modo de se desligar do real, inventa um mundo só dela em que o controle está apenas em suas mãos. Se abriga ali como uma criança se abriga no colo do pai. Sentindo-se protegida ela fecha os olhos e mergulha nos seus sonhos. Chora uma, duas, três, cinquenta vezes. Foge uma, duas, três, cinquenta vezes. Esconde-se uma, duas, três, quinhentas vezes.
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