A madrugada era fria, as névoas tomavam conta dos meus pés, uma fumaça branca indicava a minha respiração. A cidade silenciosa, eu era a única pessoa vagando por ali. Com uma garrafa de vodka na mão e um cigarro na outra, já podia ver alguns raios de luz anunciando um novo dia. Completamente sozinha, sentei-me na calçada para apreciar a visão. Os toques leves do sol nos prédios altos, as sombras, era uma bela visão. Tomei mais alguns goles da minha garrafa quase vazia, fechando os olhos assim que senti o líquido me queimando a garganta. Meus olhos demoraram para focar novamente, e então pude perceber a presença. Eu não era o único ali, afinal.
- Onde você esteve? - disse alto, de modo que tinha certeza que eu podia ser ouvida. Senti a brisa matinal tocar meu rosto, secando as quase lágrimas. Não obtive resposta, como já esperava. Seus olhos estavam estranhos, de maneira que não consegui decifrar seus sentimentos. Senti uma vontade absurda de correr para seus braços, bagunçar seus cabelos e perdoar qualquer erro que ainda nos separava. Peguei meu último cigarro, expulsando o pensamento. - Onde você estava? - tentei novamente sabendo que não seria respondida. - Quando tudo estava desmoronando? Onde é que você estava? - senti o rosto molhar e sequei as lágrimas que já começavam a cair. Eu precisava me manter forte. - Gastei todos os meus dias ao lado do telefone, que nunca tocou. Honestamente, eu sinto raiva de você. - como eu previa, seu rosto não mudou nada. O olhar intenso continuou sobre mim, me fazendo sentir como uma criança. Eu estava perdida, sozinha, insegura. Sem nenhum resquício de esperança. Você destruiu tudo o que eu tinha, tudo o que eu era. - Por que voltou agora? Por que esperou tanto tempo para acabar comigo novamente. Venha, pode me destruir agora mesmo, eu não me importo mais. - Senti a cabeça doer, mas ignorei. Apoiada nos joelhos, sem forças para me levantar, você me achou caída novamente. Agora os raios do sol já estão mais fortes. A cidade começa a acordar, mas eu não me importo. - Eu te liguei durante anos e anos, você nunca me mandou uma única mensagem. Sabe as consequências disso tudo? - sequei as lágrimas teimosas mais uma vez. - Você teve a ousadia de me arrancar qualquer tipo de felicidade que eu poderia ter. - levantei, ainda cambaleando devido as fortes dores na cabeça. Andava com cuidado, apesar de não precisar tê-lo. Eu me sentia presa, presa a todas as lembranças que você fez questão de não me deixar esquecer. Já a alguns passos de distância, tomei o último gole da garrafa e joguei-a no chão. Pude ver os pedaços de vidro espalhados pelo asfalto. Exatamente como meu coração tem estado desde que você se foi. Sorri pela primeira vez depois de toda a dor. Eu estava me libertando. - Eu odeio você. - disse, encarando seus belos olhos, não me permitindo fraquejar dessa vez. Só então percebi a mudança em sua expressão. Agora é tarde demais para desculpas. Joguei a jaqueta nas costas, terminei com o meu último cigarro e suspirei. Segui em direção ao sol, livre. Ousei olhar para trás mais uma vez, vendo-o juntar os cacos da garrafa com uma lágrima brilhante escorrendo pelos olhos.
Baseado na música "You found me - The Fray"
Dentro dela tem um coração bobo, que é sempre capaz de amar e de acreditar outra vez. Caio Fernando Abreu
segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
sábado, 8 de dezembro de 2012
Desabafo
"Eu não menti quando disse que tinha medo. Não menti sobre o que eu sentia. Não escondi quem eu era de verdade. Não ocultei nada de ti, muito pelo contrário, te dei informação demais. Talvez seja esse o meu erro: ser tão transparente. Toda palavra que te disse foi verdadeira, todas elas de acordo com o que eu sentia no momento. Está ai mais um erro meu: seguir o coração cegamente. A culpa foi minha por simplesmente ter deixado acontecer. Hoje sei que devia ter evitado isso. Assim talvez as coisas fossem mais fáceis. Eu te deixei ir porque cansei de correr atrás dos outros, não pretendo voltar atrás quanto certas coisas. Eu não menti quando disse que não desejava que tudo acabasse, que tinha medo, que não queria te perder. É um tanto irônico, hoje tenho certeza que te perdi ..."
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