sábado, 24 de maio de 2014

Doce Assassina

No frio da noite, eu te encontrei sentado no banco da praça sozinho. Especialmente naquele banco que era sinal do nosso relacionamento. Você me olhou e sorriu. Tentei retribuir o sorriso, mas o peso que carregava comigo não me deixara faze-lo. Sentei um pouco afastada de você para não lhe causar mais dor, porém você insistiu em aproximar-se e tocar em minha mão. Pedi para que se afastasse. Nosso encontro hoje seria inesquecível como todos os outros, mas não seria um encontro de amor. Atrevi-me a te olhar e tive a visão de um homem confuso e triste. Talvez você já soubesse o que estava por vir. Respirei fundo e deixei as palavras virem.

- Eu não sei a maneira menos cruel de te falar isso, mas você precisa saber. Eu fiquei quieta por muito tempo. Eu menti. E preciso dizer que isso não acontece há pouco tempo. Eu estou te enganando desde nosso primeiro encontro. Foi tudo planejado. Cada toque, cada beijo, cada palavra.  – respirei fundo novamente, eu não podia demonstrar fraqueza. – Estou prestes a quebrar seu coração, mas você precisa saber a verdade sobre mim. Eu sou uma assassina. Esse é o meu trabalho. Eu faço os homens se apaixonarem por mim e os mato. – vi em seus olhos o medo. Em outros tempos eu adoraria essa sensação, mas com você estava sendo diferente. Droga, porque você mexia tanto comigo? – Eu não gosto da pessoa que me tornei, mas foi preciso mudar. Tive o coração quebrado uma vez e decidi me vingar dos homens. Peço desculpas por quebrar seu coração, mas já lhe adianto que essa dor não vai durar tanto tempo assim. Querido, nossos planos para o futuro nunca se realizarão.
Você se levantou num salto. O medo em seus olhos crescera. Você já havia entendido qual o seu destino.

- Porém, também preciso confessar algumas coisas. Você me fez sentir coisas novas. Meu coração parece gostar de você, minha mente parece não conseguir te esquecer nem por um segundo. Teus braços me fazem sentir protegida e segura. Tua voz me acalma. Teu beijo me faz delirar. Teu olhar ... Ah, o teu olhar. O jeito que você me olha me faz sentir bonita. E o teu sorriso ... Você tem um sorriso muito bonito, sabia? E eu acho que você devia sorrir mais, não apenas com o canto da boca. Esse sorriso com o canto da boca que te deixa mais sexy. Que me faz sentir vontade de te puxar pela camisa e te beijar.

- Então porque vai continuar com o plano? – você resolveu se manifestar. A voz rouca, uma mistura de medo e pena de mim. – Porque não posso ser o homem com quem as coisas darão certo em sua vida? Porque não posso ser o cara que irá quebrar esse gelo que existe dentro de você? Que irá reconstruir cada pedaço do seu coração e cuidar dele enquanto eu viver? – você se calou. Eu sabia que você estava contendo a emoção. Ajoelhou-se na minha frente e pegou minhas mãos geladas. Não tinha medo de que eu o matasse ali mesmo. – Diga!
Após um longo suspiro, continuei.

- Pensei que poderia fazer dar certo, se eu tentasse. Mas eu não posso tentar. Eu não posso correr o risco.

- Você pode. Não vale a pena lutar contra esse monstro que existe ai dentro pra ficar comigo?
Monstro. Era exatamente isso que eu me tornara. Respirei fundo e levei uma de minhas mãos ao bolso do meu casaco. Peguei a arma e então o medo voltou ao seu olhar e você se afastou, caindo no chão. Levantei e me aproximei, segurei a arma com as duas mãos, tentando conter o tremor dos dedos.

- Eu deveria ter sido sincera. Deveria ter te contado desde o início que isso não era pra durar. Nunca deveríamos ter ido tão longe.

E sem te dar tempo para últimas palavras, eu atirei. Uma, duas, três vezes. Fechei os olhos e tentei me manter firme. Ao abri-los, vi seu corpo sem vida no chão da praça. O sangue escorria pelo peito e manchava suas roupas de frio. Então eu ergui meu rosto, segurei as lágrimas, aguentei a dor no meu próprio coração, te dei as costas e segui meu caminho. Vi as luzes acenderem nos prédios próximos a praça e em seguida um grito. Ouvi sirenes ao longe.

Eu nunca mais ficarei de boca fechada.

Ergui a arma em minha cabeça e atirei. 

Escrita ao som de Mouth Shut - The Veronicas

Frio, solidão e morte

Frio. Gelo. Neve. Não importa o lado que ela olhasse. Solidão. Tudo era duro, gelado, sem vida. Exatamente como seu coração. Ela já se acostumara a viver assim, aprendera que ficar sozinha e isolada era o melhor para todo mundo. Ela não queria mais machucar as pessoas que amava, que ama. Sentia falta do calor. Sim, sentia. Abraços quentes, amor correspondido, cuidados e carinhos gentis. Mas era melhor assim. Ela sabia disso como ninguém. Sozinha no meio da neve, ela tinha a certeza que fugir tinha sido melhor. As pessoas não tinham mais que se preocupar com ela, com seus problemas, confusões, manias e etc. Ela era uma pessoa ruim e tinha certeza disso. A solidão era o lugar dela. Assim ela não machucaria mais ninguém.
Da faca em sua mão, uma gota vermelha escorreu e manchou a neve branca. Sangue puro de um amor fracassado. Agiu por impulso, sem pensar. Percebeu a besteira que fizera apenas depois de sentir o cheiro forte de sangue e ver o corpo sem vida da pessoa que tanto amava. Morte. Era isso que ela fazia. Não apenas fisicamente, mas também mentalmente e sentimentalmente. Qualquer sentimento bom que se aproximasse, ela o destruía. Por excesso de amor, ela cometia loucuras. Por excesso de amor, ela matara a pessoa que cuidaria dela por toda a vida, que a prometera amor eterno, que seria sua cura.
~~
- Ela é louca. Uma loucura que eu nunca havia visto antes. – o homem atrás do vidro murmurava.
- Ela é uma assassina. Uma assassina de amor. – a mulher ruiva, que observava por cima do ombro do homem, respondeu. Um silêncio ensurdecedor tomou conta do local por longos minutos.
- Ela apenas queria se proteger. Proteger o coração de mais uma ferida. – uma mulher morena entrou no local, parou ao lado do homem e, observando o vidro, continuou. – De certa forma, eu a entendo. Sei o que é a dor de um coração machucado. Sei o que é esforçar-se e não ser reconhecido. Sei como é se sentir como um peso de papel. Sentir-se inútil. Preferir a solidão, o frio, a ausência de amor. – a mulher aproximou-se mais do vidro e pousou a mão ali, sentindo o frio percorrer sua pele. – Eu sinto pena dela. Sua “loucura”, se assim preferirem chamar, não tem cura, não tem tratamento. O problema dela não é na mente. É no coração. E esse é um local que nunca teremos acesso. Ninguém nunca terá. Ninguém pode descobrir ou entender o que passa em seu coração, seus sentimentos serão para sempre um mistério.
Mais um momento de silêncio.
- Ela construiu um muro em volta dele. Um muro alto, com cerca elétrica. Muito bem protegido ao redor. Nenhum homem ou mulher conseguirá chegar perto dele. – sussurrou a ruiva.
~~
Ela voltou a olhar ao redor. Depois fixou o olhar na gota vermelha manchando a neve. Olhou a faca em sua mão e deixo-a cair na neve. Uma lágrima escorreu dos olhos. E mais outra. E mais outra. Ergueu a cabeça e respirou fundo. Olhou as mãos manchadas de sangue.
Virou-se rapidamente, como se algo mudasse em sua mente e correra em direção ao vidro. Gritou alto. Debateu-se conta o vidro. Os olhos vermelhos.
~~
Do outro lado, as pessoas se afastaram, assustadas. A mulher morena foi a única a permanecer ali. Respirou fundo e retirou a mão do vidro. Levou-a em direção a moça e, como se pudesse acariciar seus cabelos, fez movimentos carinhos com a mão. O homem atreveu-se a se aproximar um pouco, parando ao lado da mulher morena. A mulher vira os olhos da garota molhados, vermelhos. Aquilo não era loucura. Não era raiva. Era dor. Dor intensa. Dor de um coração partido. Dor de falta de carinho, de amor. Dor de não ser importante para alguém. Dor da certeza de que nunca mais seria livre. A mulher a entendia.  A menina, então, parou de bater no vidro e respirou fundo. A mulher voltou a pousar a mão no vidro, com medo. A menina, como se pudesse ver a mulher morena do outro lado, fixou os olhos e também pousou sua mão sobre o vidro.

- Sinto informar aos senhores aqui presente, que, nesse estágio, já não há mais cura. Seu problema é a falta de amor