terça-feira, 21 de outubro de 2014

Animals


“Não, nós nunca vamos parar
Não há nada de errado com isso
Apenas agindo como animais
Não, não importa onde vamos
Porque todo mundo sabe
Nós somos apenas um casal de animais”
Animals - Nickelback


Anne nunca pensou que um dia cometeria a loucura de ser apaixonar por um valentão. Não era do seu feitio, afinal sempre fora a garota simples e ingênua da turma. Fazia muito mais o tipo romântica com seus vários vestidos floridos e acessórios de laços, corações e todos os tipos de frufrus. Ela realmente não entendia como aquela paixão havia começado. O homem dos seus sonhos era loiro, olhos azuis brilhantes, sorriso contagiante, amante romântico, como um verdadeiro Romeu. David não era nada disso. Com olhos escuros profundos, cabelos tão negros quanto a noite e quase nunca sorria para os outros. Talvez ela também não fosse Julieta.

A estrada que percorriam não era das melhores. Enquanto David comandava a direção, Anne tentava manipular o mapa. Várias vezes entraram em ruas estranhas pela falta de habilidade dela com o objeto. Ele ria, divertindo-se com o fracasso da moça e as continuas tentativas de acertar. Essa era outra característica marcante em Anne: o desejo de sempre acertar tudo. Já frustrada com o mapa por não saber manipulá-lo, Anne jogou-o nos braços de David e cruzou os seus. Brava consigo mesma, mirou a janela. Com certeza estavam perdidos e por culpa dela. David parou o carro na rua deserta e pegou o mapa. Anne bufou, irritada por ser incapaz de desvendar algo tão simples.

- Estamos perdidos. Completamente perdidos. – ela sussurrou com a cabeça encostada no vidro. Ele apenas sorriu, concordando, enquanto levava um belo tapa no braço. – Idiota.

O calor já se tornara insuportável dentro do automóvel, apesar do ar estar ligado. David abriu a porta e colocou-se de pé ao lado da porta. Não tinha dúvidas, estavam perdidos. Perguntaria sem nenhum problema para um estranho onde estavam, isso se houvesse alguém por ali. Levantou a cabeça, sentindo o sol cegar-lhe os olhos.

- Desculpa. – sussurrou Anne, já ao seu lado.
- Daremos um jeito. – ela sorriu timidamente. Sabia que era a culpada. David tocou-lhe o braço levemente. – Somos um casal de animais, não somos?

Anne riu ao lembrar-se do apelido que o pai dela havia lhes dado. Um casal de animais. Ela não podia negar que realmente se pareciam com isso. Quando decidiu apresentar David a família já sabia que o pai não gostaria nada do novo genro. “Ele é um animal. Os dois são. Um casal de animais”, disse o pai logo depois que David deixara a sala para ajudá-la na cozinha. Lembrou-se de como riram, deixando cair duas xícaras de chá no chão; de como correram pela porta dos fundos ao ouvirem o grito da mãe sobre a porcelana novinha estilhaçada no chão.

Tomaram um gole da garrafa de água já quente que traziam no carro e seguiram caminho pelo desconhecido. David ligou o rádio na tentativa de animar o local, colocou suas músicas de rock e cantava alto suas preferidas. Anne ria, enquanto tentava acompanhar o ritmo com seu inglês perfeito. Ela era como uma princesa. Tinha tudo o que uma menina/mulher desejava. Por ser filha única, fora completamente mimada pelos pais. Viajara pelo mundo, aprendendo então o inglês perfeito que agora dominava. Certa vez convidara David para uma viagem, logo após o término do colegial, porém ele recusara. Hoje conhecia o motivo. David era um aventureiro, gostava de sentir o vento no rosto, apreciar a paisagem. Se era para viajar, que fosse de carro. Anne aumentou o volume do rádio, cantando alto uma de suas conhecidas. Ambos riram quando ela se empolgara e gritara alto demais a letra da música. Era uma total loucura o que faziam, mas Anne tinha certeza de que fizera uma boa escolha ao aceitar o programa de índio que David propusera. Isso até estarem no meio do nada.

Quando saiu de casa naquela manhã, logo que o sol apareceu, Anne não fazia ideia do que aconteceria. Se sua mãe soubesse do programa com certeza estaria em casa a essa hora. Seu pai deve estar louco atrás dela, ligando incansavelmente para o telefone desligado no porta-luvas. Saiu tão depressa que, ao bater a porta, ouviu o barulho das cortinas no andar de cima. Ousou um olhar rápido para a janela e viu sua mãe que, mesmo sonolenta, estava de olhos arregalados. “NÃO SE ATREVA, ANNE”, ela gritou, mas já era tarde demais. Quando a mãe chegou ao portão da casa, David já havia virado a esquina. Há alguns anos atrás Anne voltaria logo ou recusaria a saída, porém ela já não era mais a mesma.

Um casal de animais. Todos eles tinham razão, afinal. Eram dois malucos. Malucos um pelo outro. Anne colocou a cabeça para fora do carro, sentindo o vento forte bater em seu rosto. Entendia perfeitamente o jeito aventureiro de David, o prazer em se sentir livre. Ele não era de se preocupar com os outros, muito menos em pensar nas consequências de suas palavras e seus atos. Ele tinha a liberdade que Anne sempre desejou. Aquela pequena menina mimada, inocente, infantil e ingênua que seus pais haviam criado hoje já não era mais a mesma.

Já cansada da viagem, do calor e do pequeno espaço para esticar as pernas, Anne deixou sua cabeça cair no ombro de David. Fechou os olhos, tentando descansar, porém o calor e o chacoalhar do carro a impediram. Estava exausta, sem saber exatamente onde estavam e nem para onde iriam. Abriu os olhos sonolentos e olhou de canto para David que estava sorrindo.

- Até que você não é tão ruim com mapas. - ela se recompôs e mirou as montanhas de areia logo a sua frente. Sentiu o cheiro de praia invadir suas narinas. Sorriu em resposta. Queria sentir a areia entre seus dedos, a água salgada refrescá-la.

Não demorou muito e David parou o carro no meio da areia. A praia estava deserta. Ela tirou as sandálias e correu pela areia. Ele ria da menina. Ela era tão jovem, tão alegre. Jogou os tênis no carro e saiu correndo atrás dela. Pareciam loucos, ou melhor, animais. Assim que a alcançou, pegou-a no colo e seguiram para o mar. Anne sentiu a água fria no corpo todo quando David a jogou no mar. Rindo, ele a viu se levantar furiosa e antes que Anne pudesse dar o troco ele mesmo se jogou no mar. Anne tocou água na cara dele quando ele resurgiu na superfície. Eram duas crianças grandes. Essa tal liberdade Anne só passou a conhecer quando encontrou David em um dos corredores da velha escolha com o cabelo bagunçado e olhos sonolentos. Ela já tinha ouvido falar dele, o tal menino que dormia em todas as aulas e desafiava a diretoria. Jamais cogitaria a ideia de se apaixonar por um maluco como ele, mas o destino prega peças. Certo dia ele entrou na aula de química, como sempre sonolento e sentou-se ao lado dela. Ótimo, teria que ter como parceiro um dorminhoco. Depois de 1 mês, eles finalmente trocaram palavras. “Bom dia” essa foi a primeira vez que Anne ouvira David falar. Educada como era, ela respondeu. Começaram uma longa conversa. Quem diria que o menino dorminhoco e maluco seria tão interessante.

O sol já começara a se por no horizonte. Anne sentou-se na areia, ofegante, com David ao seu lado. Exaustos assistiram o por do sol. O calor já começava a diminuir, porém continuava insuportável. As roupas coladas no corpo estavam quentes novamente. David passou o braço pelos ombros de Anne, admirando a grande bola laranja desaparecer por trás do mar. Agradecia aos céus por ter conhecido tal garota. Anne era do tipo de menina que se interessava por coisas simples, dava valor as pequenas coisas, gostava do fácil. Porém, o impossível nunca constou no seu vocabulário. Era um tanto misteriosa, mas possuía o mesmo tanto de maravilhosa. Não era a mais bonita, nem a mais popular, mas era verdadeira consigo e com os outros e era isso que contava. Ela tinha valores. Ele nunca pensou em estar com uma garota dessas.

Pegaram a estrada de volta. Cansada demais, Anne dormiu a viagem toda, acordando quando chegavam novamente à cidade. Pousou a cabeça no ombro de David, preguiçosa. O calor quase não existia, a temperatura estava ideal. Olhou para os olhos profundos do homem ao seu lado. Aqueles olhos que a encantavam, apesar de não terem nada de especial. Ele olhou-a confuso pela admiração da moça, fazendo-a rir. Já estavam na frente da casa de Anne, as luzes apagadas.

- Boa noite. – Anne sussurrou. David sorriu misterioso e em pouco tempo ambos estavam no banco de trás. Anne ria da situação enquanto David tentava algo. Ele era um tipo diferente de todos os outros caras com que ela havia estado. Era particularmente atraente, de uma maneira que ela não sabia descrever.  Sentiu os braços fortes dele apertarem seu corpo enquanto a respiração ofegante em seu ouvido aumentava seus arrepios. Com naturalidade, Anne puxou o rosto de David para si, que sorriu safado e beijou-lhe suavemente. Um casal de animais. No fim de tudo a viagem não seria um total fracasso.


Loucos. Nada além de loucura havia naquelas mentes. Malucos. Irracionais. Animais. Um belo casal de animais. Anne suspirou alto, deitada no banco de trás com um David cansada em cima dela. Acariciou-lhe as costas com as unhas, deixando belas marcas vermelhas na pele deliciosa dele. Sentia uma carícia na curva da cintura provando que ele não havia se entregado ao cansaço. Olhos as nuvens abraçando a lua pelo teto solar. Certamente estava frio, mas ali eles estavam extremamente quentes. Estava um silêncio gostos, a não ser pela respiração de David em seus ouvidos. Havia pouca luminosidade, da lua, do poste da esquina e uma pequena luz do lado de fora do carro que atraiu seu olhar. Uma lanterna. Seu pai. Olhos arregalados de susto e medo.

- DAVID! – Anne gritou. David olhou-a assustado. Seguiu o olhar dela. Droga!

Escrita ao som de Animals - Nickelback 

Agora que você se foi pra sempre ...

A noite estava tão fria quanto o coração daquela mulher que cruzava a esquina a caminho do ponto de táxi.
Ela carregava lágrimas pesadas nos olhos, além de duas malas velhas e surradas. A moça olhou uma última vez para trás, vendo o homem que estava de pé na janela do apartamento, com uma garrafa de bebida na mão e uma cara séria.


"Não sei o que está acontecendo 
Não sei o que deu errado"


Ela entrou no táxi e deixou as lágrimas expulsarem a dor do coração despedaçado que carregava dentro de si.

"Então eu ficarei acordado a noite toda 
Com esses olhos vermelhos"

A luz da lua entra pela janela aberta do quarto de um antigo casal apaixonado. O relógio marca 2h da manhã. Ainda há vestígios da briga que acontecera 4 horas antes.  Cacos de vidro pelo chão, roupas rasgadas, fotos destruídas, cheiro de bebida ... e de sangue. O guarda roupa está quase que totalmente vazio. As únicas coisas que ainda permaneciam ali eram as poucas roupas de um homem e algumas caixas já reviradas.  O vento sopra as cortinas, chegando ao rosto do homem jogado na cama. O homem respira fundo algumas vezes, coloca as mãos na cabeça, sentindo-se tonto. Senta na cama com dificuldade e então foca sua visão no quarto. Ele levanta da cama e passeia pelo quarto com cuidado, observando cada pedaço do relacionamento destruído há algumas horas atrás. Aproxima-se da janela, relembrando o momento que a mulher da sua vida partira.


"Parece que foram cem anos
Eu ainda não acredito que você se foi"

Ele senta no chão e pega uma das fotos. A foto de uma das milhares aventuras que fizeram juntos. O casal de jovens sorria apaixonado um para o outro, sentados na ponta do cânion, acreditando que o amor deles seria para sempre. Aquele amor já não existia mais. O homem não sabe nem se aquele amor tinha realmente existido. No final, todos tinham razão. Eles eram muito novos para viver aquela paixão.


"Enquanto essas paredes cercam-me 
com a história da nossa vida"

O homem vai juntando cada foto jogada no chão, remontando os pedaços de várias delas, relembrando cada momento feliz ao lado daquela mulher. Aquela mulher com quem ele realizou quase todos os seus sonhos; aquela mulher que o ensinou a ser alguém melhor; aquela mulher com quem ele deitara tantas vezes; aquela mulher que ele adorava vê-la dormir em seus braços; aquela mulher que foi a primeira (e única) a lhe dizer “eu te amo”. Uma lágrima solitária escorre por seu rosto pálido.


"Me sinto muito melhor 
Agora que você se foi pra sempre 
Eu digo a mim mesmo que eu não 
Sinto nem um pouco a sua falta"

O homem joga todas as fotos pela janela, livrando-se daquela maldita mulher que o fez mudar de vida. Ele nunca quis ser assim. Ele nunca quis ter um relacionamento. Ele nunca quis se apaixonar. A vida dele era nas ruas, nos bares. A vida dele era na madrugada;  bebendo, fodendo e brigando. Ela nunca devia tê-lo tirado do que o destino tinha lhe preparado.



"Não estou mentindo, negando 
Que eu me sinto muito melhor agora 
Que você se foi pra sempre"

O homem veste sua camiseta surrada, pega outra garrafa de bebida e sai pela porta do quarto, batendo-a com força. Está na hora de voltar a ser quem ele sempre deveria ter sido.



"Agora as coisas estão ficando claras 
E eu não preciso de você aqui 
E nesse mundo ao redor de mim 
Eu estou contente que você desapareceu"

Andando pelas ruas escuras e frias da cidade, o homem entra em um barzinho de esquina qualquer. O cheiro de bebida é forte e há uns 5 velhos bêbados jogados nos cantos, pelo menos por enquanto.  O homem senta no balcão e observa a atendente. A jovem não tem mais de 18 anos, veste uma mini saia e uma blusa que mal esconde seus peitos. O homem bebe os últimos goles de sua garrafa e chama a moça.


"Então eu ficarei fora a noite toda 
bebendo, fodendo e brigando 
até a manhã chegar"

No banheiro sujo do pequeno bar, os corpos suados e cheirando a sexo. A garota arruma sua roupa e sai do local. O homem sorri satisfeito, ajeita as calças e veste a camiseta. Pega seu celular jogado em algum canto do banheiro e olha as horas: 4h da manhã. Mas ele foca sua visão na foto do visor. Aquela mulher abraçava seu pescoço e sorria para ele. Aquele sorriso que ele tanto gostava de ver. Aquele cabelo que ele tanto adorava puxar e depois acariciar enquanto ela dormia no seu peito.O homem joga o celular na parede e sai do banheiro, entrega algumas notas de dinheiro na mão da garota que há pouco lhe satisfez, compra outra garrafa de bebida e sai do bar. Segue caminho de volta para a frente do seu prédio, vagando pelas ruas desertas da cidade. Passa em frente a uma praça e vê um casal aos beijos em um dos bancos. Há alguns anos atrás, era ele que estaria naquela situação a essa hora da noite. O homem continua seu caminho, pega o carro na frente do prédio e sai dirigindo sem rumo pelas ruas frias e desertas da cidade.


"Eu vou esquecer da nossa vida"

O homem para o carro e segue a pé por entre as árvores. Árvores aquelas que testemunharam diversos momentos de amor do antigo casal apaixonado. Ele bebe um gole da garrafa, já quase vazia e vai chegando no lugar onde todas as lembranças ainda estavam vivas. Dali ele podia ver toda a cidade, com suas poucas luzes naquela madrugada tão triste e gelada. Era o lugar onde tantas vezes o jovem casal se encontrou escondido e que tantas vezes se amaram.
Nenhum dos dois imaginava o desastre que seria aquele relacionamento depois de alguns anos.


"A primeira vez que você gritou comigo 
Eu deveria ter feito você sair 
Eu deveria saber 
Que poderia ser muito melhor"

Parado na beirada no morro, o homem toma os últimos goles da sua garrafa, olha para a lua tão bela, tão próxima dele. Ele fecha os olhos, respira fundo.
O homem já não tinha mais alma. Sua alma fora embora em um táxi as 23h da noite. Ele não tinha salvação, já estava morto por dentro. Foi ali onde tudo começou e era ali onde tudo terminaria. O homem puxa a faca do bolso da calça e crava-a em seu peito.


"Eu espero que você sinta minha falta 
Eu espero que eu consiga fazer você ver 
Que eu parti para sempre"

Escrita ao som de Gone Forever - Three Days Grace