quarta-feira, 10 de julho de 2013

Cinquenta vezes

Ela tenta. Tenta uma, duas, três, cinquenta vezes. Quebra a cara uma, duas, três, cinquenta vezes. Levanta uma, duas, três, cinquenta vezes. Mas desiste apenas uma vez; desapega apenas uma vez; sente dor apenas uma vez. Ergue a cabeça com a promessa de evitar acontecimentos futuros. Promessa furada. Ela sabe que vai se apaixonar loucamente de novo, vai dar o melhor de si e não receber o que acha que deve, vai sofrer, vai encharcar o travesseiro de lágrimas, vai desistir, vai desapegar, vai sentir saudade, vai recordar, vai viver. Uma única brecha será capaz de mostrar toda a sua fraqueza. Ela tem medo de ser abandonada, apesar de estar acostumada a viver no total esquecimento. Teme o escuro tanto quanto na infância. Não suporta o silêncio. Tem conhecimento de que na combinação deles os pensamentos sobrevoam em frente aos seus olhos, o nariz tranca, a voz embarga, os olhos molham e o coração dói insuportavelmente. Junta as mãos e pede aos céus para ser forte, para que dê certo uma vez na vida ao menos. Não pede outra chance, pois sabe que já desperdiçou muitas e essa é aquela que não se pode perder. Sente que já está perdendo, escorregando entre seus dedos...tão rápido. Sozinha num canto do quarto, procura um modo de se desligar do real, inventa um mundo só dela em que o controle está apenas em suas mãos. Se abriga ali como uma criança se abriga no colo do pai. Sentindo-se protegida ela fecha os olhos e mergulha nos seus sonhos. Chora uma, duas, três, cinquenta vezes. Foge uma, duas, três, cinquenta vezes. Esconde-se uma, duas, três, quinhentas vezes.

domingo, 9 de junho de 2013

Liberdade manchada de vermelho

“Nós dois temos os mesmos defeitos
Sabemos tudo a nosso respeito
Somos suspeitos de um crime perfeito,
Mas crimes perfeitos não deixam suspeitos.”
Pra ser sincero – Engenheiros do Hawaii

Já fazia um tempo que ela corria pelas ruas frias da cidade, o vento batendo no rosto e nos belos cabelos escuros. Aquela sensação de liberdade que talvez ela nunca mais tivesse a oportunidade de sentir. Observou a lua cheia logo acima de sua cabeça, as névoas brincando com suas pernas. A cidade estava em total escuridão, não havia sons naquele local. Correu até um beco sujo e com um péssimo cheiro, sentou-se em um canto escuro e deixou-se chorar. O vermelho manchava não apenas suas mãos, mas também suas roupas e até uma parte do rosto. Fora cruel. Observou as mãos, o sangue escorrendo e a sujeira do beco entre os dedos. Tirou a jaqueta, acomodou-se no canto tentando ficar invisível. Ah, como ela queria ser invisível nesse momento. Sabia que não demoraria muito para que eles a encontrassem ali com frio, suja, assustada e com a marca de um crime.

Os pensamentos vagaram para longe, para o desconhecido, buscando um pouco de liberdade. O frio já aumentara, ela batia o queixo, mas a possibilidade de sair dali e ir para um lugar quente simplesmente não existia. Fechou os olhos e imaginou um belo campo florido, viu-se correndo entre as milhares de flores que ali haviam, livre. Fitou uma rosa branca, passando os dedos em suas pétalas puras. Abriu os olhos. Aqueles olhos escuros, profundos e assustados que nunca mais veriam a liberdade. Olhou novamente as mãos sujas e tentou limpá-las na jaqueta, sem sucesso. A escuridão parecia uma ótima amiga para ela no momento. A única luz que havia ali, além da lua, era de um poste estragado que piscava a cada 15 segundos. Ela tirou as botas, deixando os pés livres da dor.

Havia maldade no ato. Sabia que não deveria tê-lo feito, mas a raiva era tanta que ela não se deu a oportunidade de pensar antes de agir. Tinha deixado, então, de ser a menina inocente que todos enganavam, que sempre aceitava tudo, que nunca duvidava das palavras. A dor que ela sentira antes do ato, ela tinha certeza, não era tão grande quanto a que sentia agora. Apesar de saber do erro, ela se orgulhava. Havia provado que mudara, agora era fria e rude, uma assassina. Ela havia finalmente aprendido a questionar e não aceitar tudo e, para provar isso, destruiu a vida de quem mais amava. Sabia que sentiria falta do canalha, mas também sabia que ele merecera o fim que teve.

Remexendo os bolsos da jaqueta, encontrou sua arma. Olhou-a atentamente sem acreditar que tivera a capacidade e a coragem de agir daquela forma. Tocou-a com cuidado, observando cada detalhe do objeto. Tão pequeno, mas ao mesmo tempo tão poderoso. Deixou o objeto ao lado de suas botas. Ela era uma criminosa. Olhou para o céu, a bela lua cheia a encarava. “Perdoe-me”, sussurrou tão baixo que ela mesma não se ouviu. Ela havia perdido a calma, deixara a razão de lado e agiu apenas pela raiva que a tomava no momento. Vendera a alma ao diabo sem pensar duas vezes. A crueldade corria em suas veias, pulsando cada vez mais forte. O barulho do tiro foi o que a acordou, fazendo-a perceber o erro. Talvez houvesse sido mesmo um erro, talvez não. De qualquer maneira, ela se sentia bem, apesar de saber que nunca mais saberia o significado da palavra “liberdade”.

No meio da escuridão, ouviu-se o som das sirenes. As luzes dos prédios próximos começaram a acender, revelando seu esconderijo. Em um susto, ela pegou a jaqueta e seguiu correndo por qualquer caminho que a pudesse levar a um novo esconderijo. Não era essa a vida que imaginara a alguns anos atrás, uma vida de fugitiva, porém tinha que aceitar que essa era a vida que ela vivia agora. Descalça e sem rumo, ela corria o mais rápido que podia. As pedras machucavam seus pés, ainda coberto por névoas. A sujeira já tomava conta de todo o seu corpo. Ah, como desejava um banho quente no momento. Tomou coragem o suficiente para olhar para trás e ver o carro virar a esquina. Dois homens seguiam correndo, enquanto um outro gritava algo pelo rádio. Ela arregalou os olhos e seguiu em direção a outra rua escura.
Sabia que não aguentaria por muito tempo, não demoraria muito para que eles a alcançassem. Estava cansada, com dores nas pernas e nos pés, mas não se renderia facilmente. A rua que estava agora já se encontrava iluminada. A sirene aumentava a cada minuto, informando-a que não adiantava fugir. Observou olhos curiosos pela janela. Uma casa quente, confortável, era tudo o que ela queria. Procurou a arma desesperadamente pelos bolsos, mas ela havia deixado o objeto no beco, junto com suas botas. Parou subitamente. Olhou ao redor. Estava completamente iluminada pela lua a pelos postes da rua. Virou-se, vendo a proximidade do carro. Os dois homens, que ela havia visto assim que saira de casa, já estavam com as armas em mãos. Sabia que em pouco tempo era ela quem estaria manchada de sangue no meio da rua. Era seu destino. Nada mais justo. Deu dois passos em direção a eles e ouviu o barulho alto do tiro. Tudo havia ficado preto.

De repente ela estava em um campo grande, como aquele que ela havia visto no beco. A brisa leve da primavera tocava-lhe o rosto. Dava passos calmos, observando cada flor. Margaridas, rosas, tulipas e até lírios. Sentou na grama fofa e suspirou. Ouviu o barulho dos pássaros e abriu os olhos, vendo-os voarem pelo céu lindamente azul. Deitou devagar sob a grama, deixando-se relaxar. Adoraria sentir-se livre mais uma vez, sentir aquela brisa nos cabelos durante as manhãs da bela estação que chegava. Pisar naquela grama fofa e correr por ela o mais rápido e longe que pudesse, ouvir o som dos pássaros e observar as borboletas brincando na sua frente. Sentir o aroma fresco de cada linda flor que ali havia. Arrependia-se de não ter aproveitado quando podia. Talvez ela não merecesse aquela liberdade, a capacidade de sonhar novamente, as sensações que a vida lhe dera e ela própria tirara. Parecia injusto, mas não era. Era justo demais. O destino talvez tenha sido cruel demais, mas ele não tinha culpa. A única culpada ali era ela mesma. Levantou, pegou uma flor. Mirou-a com cuidado. Era a mesma rosa branca de sua imaginação. Apertou-a com força, deixando os espinhos perfurarem sua pele. Uma gota de sangue vermelho vivo (ou talvez já morto) escorreu por entre os dedos, pingando na grama e manchando todo o belo cenário. A rosa começava a sujar-se de vermelho, mas ela não a soltou, ao contrário, apertou-a com mais força, os espinhos afundavam mais.

Fechou os olhos mais uma vez, deixando tudo aquilo desaparecer para, então, abri-los e enxergar as grades sujas da prisão a sua frente. Fitou as mãos ensanguentadas e sujas. Ela realmente não merecia aquela liberdade. Estava destinada a viver presa, vendo o sol nascer por trás das grades. Era uma assassina e assassinas frias como ela não possuem o direito de liberdade, não possuem o direito de nada. Olhou-me com uma expressão maldosa, mas ainda assim pude ver a menina que era antes do ato, antes do sofrimento, era uma pequena criança insegura, doce, amedrontada e um tanto assustada que carregava em sua alma.

Da coleção "Escritores Musicais - vol. 1". 

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Renascer


O som das nuvens carregadas estremeceu o céu, anunciando a chegada da chuva. Minha visão, já embaçada, observava o chão escurecer rapidamente. Levantei o rosto, vendo a escuridão logo acima de mim. Sorri ao sentir o primeiro pingo de chuva cair em meus lábios. Ouvi as trovadas cada vez mais fortes, o negror do céu cegava meus olhos, as finas gotas de água me molhavam aos poucos, renovando minha alma ainda viva. Abri os braços, na doce sensação de liberdade, deixando minha mente vazia e meu coração leve serem atingidos pela garoa gelada. Apertei os olhos com força, misturando as lágrimas com as pequenas gotas de chuva. Aquilo era sensacional. Não havia mais problemas, não havia mais dor, não havia mais infelicidade. A tristeza seguia o caminho da chuva, das mesmas gotas que escorriam pelo meu corpo em direçao ao solo. Não existia mais você, não havia mais nós, não sei dizer ao certo que eu mesma ainda existia naquele momento. Provavelmente não.
A renovação foi chegando aos poucos, me abraçou delicadamente e eu não soube negá-la. Aquela velha menina se juntou com as pequenas poças de água no chão duro e frio, dizendo adeus ao meu corpo e minha alma agora morta. A chuva já caía forte, pingos grossos enxarcavam não apenas meus cabelos e minhas roupas. Olhei as poças divertidas, brincando umas com as outras, unindo-se, misturando várias pequenas partes do meu antigo ser em uma grande poça de ilusões mortas. Fechei os olhos, sentindo a vida renascer aos poucos na minha alma, renovando meu corpo gelado não apenas pelo vento e pela chuva fria. Uma trovoada forte, uma luz cortando o céu da forma mais bela que eu jamais havia visto. Fechei meus braços, abraçando meu corpo. Senti meu peito bater forte, o coração havia reaprendido a funcionar no modo correto. Meu cérebro foi invadido por milhares de informações e eu não conseguia administrar tantos pensamentos. Senti o calor subir pelas minhas pernas, passar pelos meus braços, alcançar meu pescoço e enrubecer minhas bochechas. Sorri e ousei olhar para o céu negro. As nuvens se desuniam, dançavam no grande salão azul celeste, divertindo-se ao som da música baixa. Um vento forte soprou meu rosto, bagunçou meus cabelos, recordou quem eu era e quem eu devia ser. Agarrei o sonho quase enterrado e prometi levá-lo ao céu. Aquele mesmo céu que agora sorria para a minha nova alma. Um fino raio de luz surgia, esquentando todo o gelo. Suspirei e voltei a viver a vida a qual havia sido esquecida por muito tempo, guardada nos sonhos de uma doce e inocente criança de 4 anos.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Quebra-cabeça

A vida é como um quebra-cabeça. Viver é montá-lo com paciência e cuidado. Cada pessoa é uma peça, importante ou não. É um grande desafio, muitas peças acabam se perdendo ao longo do jogo, algumas voltam e provam o quão importante são, outras voltam e continuam totalmente desnecessárias, mais algumas voltam e se perdem mais uma vez. Entre todas essas peças perdidas há aquelas que nunca mais serão achadas, elas não estão mais ao redor. A peça central está ligada à, no mínimo, duas outras peças, aquelas que estavam lá desde o início. Assim segue o desafio, juntando as peças novas. Algumas são tão velhas, outras tão novas. Uma parte necessitou de muito tempo para encaixar, a outra foi o encaixe perfeito. Várias das peças ainda permanecem escondidas nos cantos desse grande cômodo, achá-las faz parte do desafio. Algumas junções ficam velhas, difíceis de encaixar, até que elas desaparecem. Dói perder as peças importantes, dói também perder as nem tão importantes que por um dia se encaixaram naquele grande quebra-cabeça. O jogo segue e, de repente, ele não está assim tão grande. As partes se desgastam, já não se unem mais, perdem-se, deixam o cômodo. No fim do jogo, a única peça restante é a central. A peça mais importante.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

(Re)encontro

Aqui estamos nós, em uma mesa de bar. Olhos nos olhos, buscando respostas para nossas perguntas inúteis. Temos muita coisa a resolver, muitas questões em tão pouco tempo. Apenas essa noite. Você parece tranquilo, enquanto há uma tormenta enorme em nossas cabeças. Sei que há. Cada gole de bebida para criar coragem, tentativas fracassadas de afastar o nervosismo e quebrar o maldito silêncio. Então aqui estamos nós. Há quanto tempo não nos víamos; você está mais maduro, mais homem; eu estou fria, completamente congelada por dentro. Seus olhos ainda possuem aquela magia, imagino se suas palavras também. As mãos no bolso da jaqueta são meu auto controle para não lhe tocar. Estamos tão próximos e ao mesmo tempo tão distantes. Eu errei em vir, você errou em vir. Talvez tudo fosse mais fácil se eu tivesse passado em casa, vendo um filme qualquer e comendo pipoca de microondas. Isso tudo é por sua causa.
Em meio a todo o barulho do bar, nossas vozes continuam silenciosas, procurando a palavra certa para começar, ou talvez a coragem. Nós costumávamos falar tanto e por tantas horas e veja agora, não fazemos nem ideia de como começar essa conversa idiota. Abro a boca, esperando que saia algum som que chame sua atenção, mas a garanta tranca e eu volto a ficar calada, observando a movimentação da rua. Seus olhos se perdem no mar de pessoas a nossa volta, fixando-se na televisão. Olho no relógio, já faz 30 minutos que estamos aqui, calados. "Fale alguma coisa, por favor", sussurro tão baixo para mim mesma sabendo que você não ouviu. Concentrado na televisão, a conversa não te importa mais. Levanto lentamente, seus olhos então me encaram confusos. "Vamos, comece", mas sua boca continua fechada exatamente igual a 30 minutos atrás. Lágrimas teimam em molhar meus olhos, porém não as deixo cair. Você não merece que nenhuma role pelo meu rosto. Suas mãos permanecem cruzadas sobre a mesa. Há um tempo atrás seus dedos estariam entrelaçados nos meus, naquele mesmo lugar, naquela mesma mesa. Isso tudo é por minha causa.
O silêncio está me matando. Você deve estar perdendo tanto tempo aqui comigo. Seus olhos estão misteriosos, seus lábios em uma linha séria. Abraço a jaqueta, cruzo os braços em frente ao peito, me sentindo mais protegida. O coração aperta, a garganta tranca, as mãos suam. Eu deveria mesmo estar em casa. As perguntas rodeiam minha mente, as respostas estão presas em sua boca. Com cuidado, movo meus pés em direção a saída. Ouço o sino da porta tocar assim que sinto a brisa gelada do lado de fora. Você me encara confuso pela janela, esperando uma explicação, uma resposta para cada pergunta. Você levanta, deixa um punhado de dinheiro sobre a mesa e, quando percebo, está parado ao meu lado. Calados.
Aqui estamos nós, parados lado a lado. Essa busca por respostas não será tão simples, temos muito o que falar, muito o que ouvir, mas as palavras estão presas em nossas gargantas secas.
Então aqui estamos nós, apenas essa noite.

Escrita ao som de Just Tonight - The Pretty Reckless

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Faz muito tempo que não paro para observar as estrelas. O céu está mais belo do que nunca esta noite. A lua parece sorrir enquanto as milhares de estrelas a rodeiam como em uma dança. De passo em passo, cada estrela se aproxima, transformando aquilo tudo em um grande espetáculo. É aqui que penso em você, em tudo o que fomos e não fomos. Milhares de lágrimas, centenas de sorrisos. Sorrisos esses como o das estrelas que vejo, brilhantes, felizes e muitos deles de pura ilusão. Relembro cada momento, cada palavra, cada frio na barriga, cada noite de insônia e agradeço. Sim, agradeço. Agradeço por cada parte que valeu a pena e também por aquelas outras dezenas de partes que fizeram eu estar aqui hoje, pensando em você. Aperto no peito, lágrimas de saudade, sorriso de superação. Sei que muitas das estrelas que vejo já não existem mais, prova de que nem todo sorriso ou brilho dura para sempre. No meio dessa escuridão eu busco uma saída fácil e rápida. Estou imersa em lembranças, no meio dessa noite tão bela, fria e convidativa. Já não há salvação.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

"Como pode alguém ser tão frio de modo que congele tudo em seu interior? Sei que o mundo é cruel e que as pessoas são más umas com as outras. Falsidade é tudo o que enxergo ao meu redor. A felicidade se perdeu em um beco qualquer dessa vida e temo não poder reencontrá-la.
Borrões abaixo dos olhos e um coração de gelo, eu aprendi a ser como todos os outros. Em um mundo como esse não há esperança, o sol raramente aparece e, quando aparece, o frio trata logo de destruí-lo. É assim a vida por aqui. Corações trancados a milhares de chaves, mentes a trabalho de si mesmos. Afinal, o que importa aqui é o gelo, o frio. Sinto ter me tornado assim, sinto que tudo o que há de belo se afogue em meio a tantas pedras de gelo, sinto não sabermos mais o que é amar. Sinto não termos salvação."