domingo, 9 de junho de 2013

Liberdade manchada de vermelho

“Nós dois temos os mesmos defeitos
Sabemos tudo a nosso respeito
Somos suspeitos de um crime perfeito,
Mas crimes perfeitos não deixam suspeitos.”
Pra ser sincero – Engenheiros do Hawaii

Já fazia um tempo que ela corria pelas ruas frias da cidade, o vento batendo no rosto e nos belos cabelos escuros. Aquela sensação de liberdade que talvez ela nunca mais tivesse a oportunidade de sentir. Observou a lua cheia logo acima de sua cabeça, as névoas brincando com suas pernas. A cidade estava em total escuridão, não havia sons naquele local. Correu até um beco sujo e com um péssimo cheiro, sentou-se em um canto escuro e deixou-se chorar. O vermelho manchava não apenas suas mãos, mas também suas roupas e até uma parte do rosto. Fora cruel. Observou as mãos, o sangue escorrendo e a sujeira do beco entre os dedos. Tirou a jaqueta, acomodou-se no canto tentando ficar invisível. Ah, como ela queria ser invisível nesse momento. Sabia que não demoraria muito para que eles a encontrassem ali com frio, suja, assustada e com a marca de um crime.

Os pensamentos vagaram para longe, para o desconhecido, buscando um pouco de liberdade. O frio já aumentara, ela batia o queixo, mas a possibilidade de sair dali e ir para um lugar quente simplesmente não existia. Fechou os olhos e imaginou um belo campo florido, viu-se correndo entre as milhares de flores que ali haviam, livre. Fitou uma rosa branca, passando os dedos em suas pétalas puras. Abriu os olhos. Aqueles olhos escuros, profundos e assustados que nunca mais veriam a liberdade. Olhou novamente as mãos sujas e tentou limpá-las na jaqueta, sem sucesso. A escuridão parecia uma ótima amiga para ela no momento. A única luz que havia ali, além da lua, era de um poste estragado que piscava a cada 15 segundos. Ela tirou as botas, deixando os pés livres da dor.

Havia maldade no ato. Sabia que não deveria tê-lo feito, mas a raiva era tanta que ela não se deu a oportunidade de pensar antes de agir. Tinha deixado, então, de ser a menina inocente que todos enganavam, que sempre aceitava tudo, que nunca duvidava das palavras. A dor que ela sentira antes do ato, ela tinha certeza, não era tão grande quanto a que sentia agora. Apesar de saber do erro, ela se orgulhava. Havia provado que mudara, agora era fria e rude, uma assassina. Ela havia finalmente aprendido a questionar e não aceitar tudo e, para provar isso, destruiu a vida de quem mais amava. Sabia que sentiria falta do canalha, mas também sabia que ele merecera o fim que teve.

Remexendo os bolsos da jaqueta, encontrou sua arma. Olhou-a atentamente sem acreditar que tivera a capacidade e a coragem de agir daquela forma. Tocou-a com cuidado, observando cada detalhe do objeto. Tão pequeno, mas ao mesmo tempo tão poderoso. Deixou o objeto ao lado de suas botas. Ela era uma criminosa. Olhou para o céu, a bela lua cheia a encarava. “Perdoe-me”, sussurrou tão baixo que ela mesma não se ouviu. Ela havia perdido a calma, deixara a razão de lado e agiu apenas pela raiva que a tomava no momento. Vendera a alma ao diabo sem pensar duas vezes. A crueldade corria em suas veias, pulsando cada vez mais forte. O barulho do tiro foi o que a acordou, fazendo-a perceber o erro. Talvez houvesse sido mesmo um erro, talvez não. De qualquer maneira, ela se sentia bem, apesar de saber que nunca mais saberia o significado da palavra “liberdade”.

No meio da escuridão, ouviu-se o som das sirenes. As luzes dos prédios próximos começaram a acender, revelando seu esconderijo. Em um susto, ela pegou a jaqueta e seguiu correndo por qualquer caminho que a pudesse levar a um novo esconderijo. Não era essa a vida que imaginara a alguns anos atrás, uma vida de fugitiva, porém tinha que aceitar que essa era a vida que ela vivia agora. Descalça e sem rumo, ela corria o mais rápido que podia. As pedras machucavam seus pés, ainda coberto por névoas. A sujeira já tomava conta de todo o seu corpo. Ah, como desejava um banho quente no momento. Tomou coragem o suficiente para olhar para trás e ver o carro virar a esquina. Dois homens seguiam correndo, enquanto um outro gritava algo pelo rádio. Ela arregalou os olhos e seguiu em direção a outra rua escura.
Sabia que não aguentaria por muito tempo, não demoraria muito para que eles a alcançassem. Estava cansada, com dores nas pernas e nos pés, mas não se renderia facilmente. A rua que estava agora já se encontrava iluminada. A sirene aumentava a cada minuto, informando-a que não adiantava fugir. Observou olhos curiosos pela janela. Uma casa quente, confortável, era tudo o que ela queria. Procurou a arma desesperadamente pelos bolsos, mas ela havia deixado o objeto no beco, junto com suas botas. Parou subitamente. Olhou ao redor. Estava completamente iluminada pela lua a pelos postes da rua. Virou-se, vendo a proximidade do carro. Os dois homens, que ela havia visto assim que saira de casa, já estavam com as armas em mãos. Sabia que em pouco tempo era ela quem estaria manchada de sangue no meio da rua. Era seu destino. Nada mais justo. Deu dois passos em direção a eles e ouviu o barulho alto do tiro. Tudo havia ficado preto.

De repente ela estava em um campo grande, como aquele que ela havia visto no beco. A brisa leve da primavera tocava-lhe o rosto. Dava passos calmos, observando cada flor. Margaridas, rosas, tulipas e até lírios. Sentou na grama fofa e suspirou. Ouviu o barulho dos pássaros e abriu os olhos, vendo-os voarem pelo céu lindamente azul. Deitou devagar sob a grama, deixando-se relaxar. Adoraria sentir-se livre mais uma vez, sentir aquela brisa nos cabelos durante as manhãs da bela estação que chegava. Pisar naquela grama fofa e correr por ela o mais rápido e longe que pudesse, ouvir o som dos pássaros e observar as borboletas brincando na sua frente. Sentir o aroma fresco de cada linda flor que ali havia. Arrependia-se de não ter aproveitado quando podia. Talvez ela não merecesse aquela liberdade, a capacidade de sonhar novamente, as sensações que a vida lhe dera e ela própria tirara. Parecia injusto, mas não era. Era justo demais. O destino talvez tenha sido cruel demais, mas ele não tinha culpa. A única culpada ali era ela mesma. Levantou, pegou uma flor. Mirou-a com cuidado. Era a mesma rosa branca de sua imaginação. Apertou-a com força, deixando os espinhos perfurarem sua pele. Uma gota de sangue vermelho vivo (ou talvez já morto) escorreu por entre os dedos, pingando na grama e manchando todo o belo cenário. A rosa começava a sujar-se de vermelho, mas ela não a soltou, ao contrário, apertou-a com mais força, os espinhos afundavam mais.

Fechou os olhos mais uma vez, deixando tudo aquilo desaparecer para, então, abri-los e enxergar as grades sujas da prisão a sua frente. Fitou as mãos ensanguentadas e sujas. Ela realmente não merecia aquela liberdade. Estava destinada a viver presa, vendo o sol nascer por trás das grades. Era uma assassina e assassinas frias como ela não possuem o direito de liberdade, não possuem o direito de nada. Olhou-me com uma expressão maldosa, mas ainda assim pude ver a menina que era antes do ato, antes do sofrimento, era uma pequena criança insegura, doce, amedrontada e um tanto assustada que carregava em sua alma.

Da coleção "Escritores Musicais - vol. 1".