sábado, 23 de fevereiro de 2013

Quebra-cabeça

A vida é como um quebra-cabeça. Viver é montá-lo com paciência e cuidado. Cada pessoa é uma peça, importante ou não. É um grande desafio, muitas peças acabam se perdendo ao longo do jogo, algumas voltam e provam o quão importante são, outras voltam e continuam totalmente desnecessárias, mais algumas voltam e se perdem mais uma vez. Entre todas essas peças perdidas há aquelas que nunca mais serão achadas, elas não estão mais ao redor. A peça central está ligada à, no mínimo, duas outras peças, aquelas que estavam lá desde o início. Assim segue o desafio, juntando as peças novas. Algumas são tão velhas, outras tão novas. Uma parte necessitou de muito tempo para encaixar, a outra foi o encaixe perfeito. Várias das peças ainda permanecem escondidas nos cantos desse grande cômodo, achá-las faz parte do desafio. Algumas junções ficam velhas, difíceis de encaixar, até que elas desaparecem. Dói perder as peças importantes, dói também perder as nem tão importantes que por um dia se encaixaram naquele grande quebra-cabeça. O jogo segue e, de repente, ele não está assim tão grande. As partes se desgastam, já não se unem mais, perdem-se, deixam o cômodo. No fim do jogo, a única peça restante é a central. A peça mais importante.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

(Re)encontro

Aqui estamos nós, em uma mesa de bar. Olhos nos olhos, buscando respostas para nossas perguntas inúteis. Temos muita coisa a resolver, muitas questões em tão pouco tempo. Apenas essa noite. Você parece tranquilo, enquanto há uma tormenta enorme em nossas cabeças. Sei que há. Cada gole de bebida para criar coragem, tentativas fracassadas de afastar o nervosismo e quebrar o maldito silêncio. Então aqui estamos nós. Há quanto tempo não nos víamos; você está mais maduro, mais homem; eu estou fria, completamente congelada por dentro. Seus olhos ainda possuem aquela magia, imagino se suas palavras também. As mãos no bolso da jaqueta são meu auto controle para não lhe tocar. Estamos tão próximos e ao mesmo tempo tão distantes. Eu errei em vir, você errou em vir. Talvez tudo fosse mais fácil se eu tivesse passado em casa, vendo um filme qualquer e comendo pipoca de microondas. Isso tudo é por sua causa.
Em meio a todo o barulho do bar, nossas vozes continuam silenciosas, procurando a palavra certa para começar, ou talvez a coragem. Nós costumávamos falar tanto e por tantas horas e veja agora, não fazemos nem ideia de como começar essa conversa idiota. Abro a boca, esperando que saia algum som que chame sua atenção, mas a garanta tranca e eu volto a ficar calada, observando a movimentação da rua. Seus olhos se perdem no mar de pessoas a nossa volta, fixando-se na televisão. Olho no relógio, já faz 30 minutos que estamos aqui, calados. "Fale alguma coisa, por favor", sussurro tão baixo para mim mesma sabendo que você não ouviu. Concentrado na televisão, a conversa não te importa mais. Levanto lentamente, seus olhos então me encaram confusos. "Vamos, comece", mas sua boca continua fechada exatamente igual a 30 minutos atrás. Lágrimas teimam em molhar meus olhos, porém não as deixo cair. Você não merece que nenhuma role pelo meu rosto. Suas mãos permanecem cruzadas sobre a mesa. Há um tempo atrás seus dedos estariam entrelaçados nos meus, naquele mesmo lugar, naquela mesma mesa. Isso tudo é por minha causa.
O silêncio está me matando. Você deve estar perdendo tanto tempo aqui comigo. Seus olhos estão misteriosos, seus lábios em uma linha séria. Abraço a jaqueta, cruzo os braços em frente ao peito, me sentindo mais protegida. O coração aperta, a garganta tranca, as mãos suam. Eu deveria mesmo estar em casa. As perguntas rodeiam minha mente, as respostas estão presas em sua boca. Com cuidado, movo meus pés em direção a saída. Ouço o sino da porta tocar assim que sinto a brisa gelada do lado de fora. Você me encara confuso pela janela, esperando uma explicação, uma resposta para cada pergunta. Você levanta, deixa um punhado de dinheiro sobre a mesa e, quando percebo, está parado ao meu lado. Calados.
Aqui estamos nós, parados lado a lado. Essa busca por respostas não será tão simples, temos muito o que falar, muito o que ouvir, mas as palavras estão presas em nossas gargantas secas.
Então aqui estamos nós, apenas essa noite.

Escrita ao som de Just Tonight - The Pretty Reckless

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Faz muito tempo que não paro para observar as estrelas. O céu está mais belo do que nunca esta noite. A lua parece sorrir enquanto as milhares de estrelas a rodeiam como em uma dança. De passo em passo, cada estrela se aproxima, transformando aquilo tudo em um grande espetáculo. É aqui que penso em você, em tudo o que fomos e não fomos. Milhares de lágrimas, centenas de sorrisos. Sorrisos esses como o das estrelas que vejo, brilhantes, felizes e muitos deles de pura ilusão. Relembro cada momento, cada palavra, cada frio na barriga, cada noite de insônia e agradeço. Sim, agradeço. Agradeço por cada parte que valeu a pena e também por aquelas outras dezenas de partes que fizeram eu estar aqui hoje, pensando em você. Aperto no peito, lágrimas de saudade, sorriso de superação. Sei que muitas das estrelas que vejo já não existem mais, prova de que nem todo sorriso ou brilho dura para sempre. No meio dessa escuridão eu busco uma saída fácil e rápida. Estou imersa em lembranças, no meio dessa noite tão bela, fria e convidativa. Já não há salvação.