Dentro dela tem um coração bobo, que é sempre capaz de amar e de acreditar outra vez. Caio Fernando Abreu
sexta-feira, 5 de abril de 2013
Renascer
O som das nuvens carregadas estremeceu o céu, anunciando a chegada da chuva. Minha visão, já embaçada, observava o chão escurecer rapidamente. Levantei o rosto, vendo a escuridão logo acima de mim. Sorri ao sentir o primeiro pingo de chuva cair em meus lábios. Ouvi as trovadas cada vez mais fortes, o negror do céu cegava meus olhos, as finas gotas de água me molhavam aos poucos, renovando minha alma ainda viva. Abri os braços, na doce sensação de liberdade, deixando minha mente vazia e meu coração leve serem atingidos pela garoa gelada. Apertei os olhos com força, misturando as lágrimas com as pequenas gotas de chuva. Aquilo era sensacional. Não havia mais problemas, não havia mais dor, não havia mais infelicidade. A tristeza seguia o caminho da chuva, das mesmas gotas que escorriam pelo meu corpo em direçao ao solo. Não existia mais você, não havia mais nós, não sei dizer ao certo que eu mesma ainda existia naquele momento. Provavelmente não.
A renovação foi chegando aos poucos, me abraçou delicadamente e eu não soube negá-la. Aquela velha menina se juntou com as pequenas poças de água no chão duro e frio, dizendo adeus ao meu corpo e minha alma agora morta. A chuva já caía forte, pingos grossos enxarcavam não apenas meus cabelos e minhas roupas. Olhei as poças divertidas, brincando umas com as outras, unindo-se, misturando várias pequenas partes do meu antigo ser em uma grande poça de ilusões mortas. Fechei os olhos, sentindo a vida renascer aos poucos na minha alma, renovando meu corpo gelado não apenas pelo vento e pela chuva fria. Uma trovoada forte, uma luz cortando o céu da forma mais bela que eu jamais havia visto. Fechei meus braços, abraçando meu corpo. Senti meu peito bater forte, o coração havia reaprendido a funcionar no modo correto. Meu cérebro foi invadido por milhares de informações e eu não conseguia administrar tantos pensamentos. Senti o calor subir pelas minhas pernas, passar pelos meus braços, alcançar meu pescoço e enrubecer minhas bochechas. Sorri e ousei olhar para o céu negro. As nuvens se desuniam, dançavam no grande salão azul celeste, divertindo-se ao som da música baixa. Um vento forte soprou meu rosto, bagunçou meus cabelos, recordou quem eu era e quem eu devia ser. Agarrei o sonho quase enterrado e prometi levá-lo ao céu. Aquele mesmo céu que agora sorria para a minha nova alma. Um fino raio de luz surgia, esquentando todo o gelo. Suspirei e voltei a viver a vida a qual havia sido esquecida por muito tempo, guardada nos sonhos de uma doce e inocente criança de 4 anos.
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