quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Era um campo grande, totalmente coberto por flores, muito bonito. A brisa leve da primavera tocou-lhe o rosto. Andou com calma, observando cada flor. Margaridas, rosas, tulipas e até lírios. Sentou-se na grama fofa, suspirando. Levantou o rosto para o céu, deixando o sol iluminar e aquecer cada minúscula parte de seu corpo. Ouviu o barulho dos pássaros e abriu os olhos, vendo-os voarem pelo céu lindamente azul, livres. Sorriu. Ela amava aquela sensação. Deitou devagar sob a grama, deixando-se relaxar. Passaria a tarde toda ali, se pudesse.
Adoraria sentir-se livre mais uma vez, sentir aquela brisa nos cabelos durante as manhãs da bela estação que  chegava. Pisar naquela grama fofa e correr por ela o mais rápido e longe que pudesse, ouvir o som dos pássaros e observar as borboletas brincando na sua frente. Sentir o aroma fresco de cada linda flor que ali havia.
Arrependia-se de não ter aproveitado quando podia. Talvez ela não merecesse aquela liberdade, a capacidade de sonhar novamente, as sensações que a vida lhe dera e ela própria tirara. Parecia injusto, mas não era. Era justo demais. O destino talvez tenha sido cruel demais, mas ele não tinha culpa. A única culpada ali era ela mesma.
Levantou-se, pegou uma flor. Mirou-a com cuidado. Sentiu o espinho rasgar-lhe os dedos, mas não ligou para tal. Uma gota de sangue vermelho vivo (ou talvez já morto) escorreu por entre os dedos, pingando na grama e manchando todo o belo cenário. A rosa branca e pura em sua mão começava a sujar-se de vermelho, mas ela não a soltou, ao contrário, apertou-a com mais força, sentindo os espinhos penetrarem em sua pele. Dor, ela já nem sentia mais.
Fechou os olhos mais uma vez, deixando tudo aquilo desaparecer para, então, abri-los e enxergar as grades sujas da prisão a sua frente. Fitou as mãos ensanguentadas e logo ouviu os gritos da companheira de cela. Com as mãos no ventre, a mulher a sua frente caiu no chão, agoniando e, minutos depois, o corpo estava sem vida. Ela realmente não merecia aquela liberdade. Estava destinada a viver presa, vendo o sol nascer por trás das grades. Era uma assassina e assassinas frias como ela não possuem o direito de liberdade, não possuem o direito de nada. Olhou-me com expressão neutra, mas ainda assim pude ver a pequena criança insegura, doce, amedrontada e um tanto assustada que carregava em sua alma.

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